Perspectivas de partes de uma Vida

Sou desorganizado por natureza. Desde que me lembro de mim sendo eu, sou desorganizado.

E desorganizo-me principalmente com o tempo. O tempo para fazer as coisas certas, no momento correcto. Por vezes por opção. Por vezes por imposição. Espremendo tudo, a realidade é que não o consigo gerir.

Desde aquele dia que deixei a saia da minha mãe, abandonei aquele quarto, que assim é. Principalmente, desde esse dia. Mas o que mais me afronta, é querer estar com as pessoas de quem gosto e não consigo. E vejo remorsos quando olho para trás. Além de lamurias quando olho em frente.

Sendo a vida um rio, a viagem vai a meio. Não sendo circular, estamos sempre a tempo de mudar. Vontade não falta. O que me faz sentar e pensar, deixar de ver a vida andar - ao sabor do vento - e assumir as suas amarras.

É sempre altura de recomeços.

Amores Eternos

Não estou a falar para mim, mas para ti.

A vida é curta. Contudo, existem pessoas que por ela passam e permanecem. Algumas razões são facilmente identificáveis, outras nem tanto. Mesmo a distância não as consegue apagar. Consegue sim, criar saudade. Lembranças. E memórias. Nostalgia, E alegria. Quem nunca divagou ao ouvir uma música, transportar-nos para outro espaço. Outro mundo. Parecem vivências de outra vida. E por isso se desvanecem se nada fizermos para parar as regras que deterioram a história. A força está dentro de nós.

A vida é uma passagem. Não andamos cá por muito tempo, é uma verdade universal à qual fugimos todos os dias. E a nossa fuga, é viver tudo de uma só vez. É ser sôfrego. Ter gula de ter mais. Ou ter tudo de uma vez só. Desculpem, mas a infelicidade vem acompanhada com esta maneira de viver. Sentimo-nos sós o resto do tempo. A solidão apodera-se do tempo. E do espaço. A vida perder cor. Acaba por perder vida também. O tempo - ai o tempo - passa sem sabermos que passa. É como se nada acontecesse nestes momentos.

A vida dá muitas voltas. Mudas de cidade, mudas de emprego, mudas de vida. Mas no fundo, olhas para dentro de ti e sabes que elas estão lá. Mesmo quando não estão. Sabes que não precisas de falar todos os dias. Nem todas as semanas. Mas quando falas, parece que ainda foi ontem a última vez que trocaram palavras. Abraços e beijos. Sorrisos e lágrimas. Quando te sentas à lareira a ouvir os conselhos sábios dos mais velhos, vem sempre o mesmo ditado à baila,

"Diz-me com quem andas, vou-te dizer quem és", e eu sempre respondo que sou somatório de todos vós.

Desculpem, perdi-me nas palavras. As lágrimas começam a correr-me nos olhos. Tenho as mãos a tremer. Trazer isto ao mundo, causa-me dor. Dor por saber o que vivi, e acabei por perder. Angústia por não perpetuar. E tristeza por não o conseguir mais vezes.

No fundo, sabes que serás sempre uma parte de mim. As palavras acabam por deixar de ser palavras. Foram segredos. Olhares. Pequenos toques que tudo diziam. Foram tudo. E parece que hoje já nada são. Os segredos sei que ficaram sempre aí, guardados. A cumplicidade ficará guardada algures. O livro da vida acabará por guardar tudo o resto.

Existem muitos tipos de amor. E de pessoas. Alguns, - estes - serão eternos...




Amores e saudades.

Não consigo viver sem ti.

Costumam dizer que o amor fala mais alto. Já acreditei que não, continuo a sonhar que sim. E com o amor vem a saudade. Este sentimento de ausência que que me vai matando aos poucos. Saber que estás aí e, ao mesmo tempo, não estás, faz-me sentir só. Perdido. É um estranho vazio para o qual não estava preparado - como me conheço, nunca estarei - e me faz chorar. Choro e desespero, desprotegido no canto do meu quarto. A impotência de não poder estar presente nos teus bons momentos (e nos maus), de não poder fazer nada que mude o rumo dos acontecimentos, sem que eles me conduzam ao precipício. Acordo dia atrás de dia, sem ti a meu lado, sem o teu perfume espalhado pelos lençóis, sem a tua cabeça aconchegada em mim,

Na realidade, estou mais sozinho que nunca.

Olho para o tempo que passámos juntos e vejo que era sôfrego. Tantas coisas para fazer e tão pouco tempo para cumprir promessas. O reencontro enchia-me de beijos e a despedida de um aperto no coração. De lágrimas. Nunca pensei que o tempo pudesse voar. Idealizei algo para mim, para nós. O amor que tínhamos merecia ser vivido, não sonhado.

Hoje, contínuo a sentir-me só.

Nada se esquece na solidão. Essa, é alimentada por memórias e recordações. De ti. De mim. De nós como um só. De beijos, mimos e abraços. De arrufos e pazes. De cumplicidade e de um "ok" a acabar uma frase, como que a dizer-me que já fiz asneira. Do conforto e a amizade. A entrega e o sonhar. Era felicidade espelhada em todos os momentos. Um mundo diferente. Distante porque nunca nos apetecia voltar. O tempo voltava a voar, aí sem que me importasse. Saber que me completas torna-me realizado.

A saudade torna-me vazio.

Como torna o meu mundo insignificante. Sinto falta das pequenas coisas. As minhas t-shirts no teu corpo. O pão - sempre com aquele sabor estranho - ao pequeno almoço. Massagens eram sempre conquistadas em disputas. Sinto falta de poder ser eu. Sinto falta de alguém que me guie. Levei as coisas levianas e fiz mal. Hoje, hoje sonho. Sonho com o Cosmos. Os amores não foram feitos para serem perfeitos, mas para serem para sempre.

Desculpa, mas não consigo viver sem ti.

Paradigma

Enganas-te.

Nunca vou ser aquele rapaz de corpo definido. Não tenho vontade de ir horas e horas a fio, para o ginásio fazer o que não gosto. Também nunca achei piada aquelas fotos em frente do espelho a exibir o músculo. Grande e, aparentemente, forte. Sou roliço, e quanto a isso, nada faço. Continuo a comer aquilo que me apetece. Sobretudo o que gosto. Não faço fretes para agradar a quem não quero. Seja na comida ou... na vida social. Amadureci. Não vou ser aquele rapaz que se dá a toda a gente. A selectividade é agora uma rotina. Sorrisos e "olás" apenas me fazem educado. Amigos, esses, conto pelos dedos do corpo. Talvez tenha que juntar os das mãos aos dos pés mas, no final, não são assim tantos. Também não sou de fazer as coisas contra natura. Não me peças para andar de mão dada. Não gosto, transpiro. Não gosto de mostrar romantismo na rua, nem o Ártico em casa. Os conceitos estão errados. Nos dias que correm, todos mostram ao mundo aquilo que não são. Apenas o fazem porque é politicamente correto, ou assim eles pensam. Gosto da minha playlist. Não a mudo apenas porque não é o que está na moda. Os chamados "hits de Verão" não deixam de ser isso mesmo, uma música, por vezes engraçada, que dá na rádio num verão como tantos outros. Dentro da minha complexidade, não deixo de ser uma pessoa simples.

E tu?

Tu nunca vais entrar nos meus padrões. Não gosto que ligues mais ao facebook do que à tua vida. A real. Aquela, segundo palavras dos meus antepassados, que te põe comida na mesa. Não gosto que poses só porque gostas de ter 4387385 de "likes" nas fotografias e, por isso, vestes menos roupa para elas do que para mim. Não gosto da futilidade em que te estás a tornar. Conta mais o que os outros vão falar de ti do que aquilo que tu pensas de ti própria. Vais a um bar específico, uma praia idem aspas aspas, um restaurante conhecido, só porque "parece bem". Ligas mais ao veres o Pedro Teixeira na rua do que eu te fazer um jantar a dois. Juntas-te a pessoas ocas. Os objectivos das novas gerações não é tirarem um curso superior e começarem a trabalhar. É terem uma cara linda, um sorriso de dentes branquinhos, um cabelo perfeito, umas mamas postiças, um rabo empinado e assim serem relações públicas de um bar ou de uma festa. Se lhe perguntares como está a economia europeia, dir-te-ão que ajudam a Grécia porque compram iogurtes "grekos". Se lhe perguntares o que é um preservativo, foi algo que ouviram falar na reunião de planeamento familiar. Nunca usaram, por isso, estão a passar o Verão no Algarve e a avó a tomar conta da criança. Se lhe perguntares a idade, vai-te dizer que acabou de fazer 22. Também nunca vou perceber porque, quando és mesmo abençoada divina, porque olhas para mim com um olhar repugnante. Não tenho 1,80m, não tenho cabelos loiros, abdominais definidos foi coisa que apenas vi em revistas, o Porche continua a ser o meu sonho - que relembro todos os dias pela imagem de fundo do computador -, a casa de praia uma utopia, a quinta uma miragem. Mas por dentro...

Aí sou grande, tão grande que não cabo em mim.

Pais e Mães

Admiro o meu pai. E a minha mãe.

Desculpem. Admiro todos os pais e todas as mães. Desde pequenos que sonhamos ser adultos. "Olha pai, quando tiver 18 anos já posso tirar a carta e andar de carro", "Mãe, quando é que não vou ter horas para chegar a casa?", "Vou fugir de casa para fazer o que eu quiser sem ninguém me mandar", são algumas das frases mais ecoadas durante a adolescência de todos. Queremos ser adultos a toda a força que por vezes até nos esquecemos que os melhores anos da nossa vida estão na nossa infância. Brincar sem responsabilidades. Roupa lavada ao final do dia. Quarto imaculado desde manhã. Comida na mesa sem que nada tenhamos feito para isso acontecer.

E isto me leva ao início deste excerto. Os adultos são aqueles que têm responsabilidades. Que trabalham dia após dia, semana após semana, anos a fio até chegar o seu tempo de reforma. Trabalham para proporcionar o melhor para os seus filhos. Para que estes nunca saiam de casa a dizer que lhes faltou isto. Ou aquilo. Para que estes sejam o brilho dos seus olhos mesmo na velhice. E trabalhar de sol a sol tem uma grande dificuldade. O cansaço. Físico e psicológico. Mas chegam a casa e "fecham os olhos" a todas as dores, todos os problemas e vão com sorriso na boca ajudar-nos a fazer os trabalhos de casa que trouxemos dos ATL - lá a nossa cabeça está em brincar com os da nossa espécie. Vão ligar o radiador da casa de banho para estar quente quando vamos tirar todo o suor e toda a poeira de mais um dia de brincadeira. Vão meter a mesa e fazer o jantar para nos repor a energia e as vitaminas do dia, dia esse que nós sonhamos ser do mais cansativo que a vida tem para nos oferecer. Retiram a mesa, lavam a loiça, dão um jeito na cozinha e vão para o sofá ver a novela connosco. E antes de dormir, ainda têm tempo de nos ir dar um jeito na cama e um beijo de boa noite até se apagar a luz do candeeiro da mesa de cabeceira. Aí acaba o nosso dia, mas o deles contínua. Têm contas para fazer. Como pagar os livros, a escola, a mesada, o gás, a luz, a roupa nova que precisamos. Põem sempre nos nossos "vícios" primeiro que os deles. Ainda vão debruçar-me em no que fazer no fim de semana, onde irão ser as férias, como irão trocar de carro. Quem leva a avó ao médico. E às compras. Quem ajuda nas mudanças da família. Estoirados vão dormir para acordarem primeiro que nós e nos ir acordar. Despertador é algo que não consta do vocabulário de um adolescente. Quando vais à cozinha, já encontras uma torrada e um café com leite. E passado 5 minutos estão a gritar para ir embora, que estão atrasados para te deixar na escola. Ser pai, ou mãe, é um dos maiores privilégios que existe. Mas custa. 

Já eu, chego a casa e apenas penso em dormir. Não tenho a sua força e a sua vontade. Uma vida fora de casa e outra em casa. E por isso, admiro todos os pais e todas as mães.

Dois euros.

Intervalo. Finalmente um intervalo. Pedro encontrava-se exausto. Sonhava com aquela hora desde que entrou. Tinha passado mal a noite, dormido pouco. Dirigiu-se a uma esplanada para satisfazer o seu pequeno vício.

- Um café, por favor.

Enquanto apreciava o seu café, e com todo o tempo do mundo, Pedro decidiu observar a paisagem e as pessoas. Em pouco tempo satisfez-se de conclusões. Existem pombas. Muitas pombas. Pombas por todo o lado. Sozinhas. Em grupo. As pessoas de Lisboa já se habituaram a estes pequenos voadores. Algumas andam pela rua como se elas não existissem. Outras tratam-nas como seus animais de estimação e decidem alimentá-las com pequenas migalhas de pão duro. Até as pombas já se sentem o alarido da capital. Correm. Fogem. Não param um segundo.

Não param um segundo, como os alfacinhas. Peço desculpa, ninguém que vive em Lisboa nasceu realmente lá. Foram todos à procura do mesmo sonho que Pedro, trabalho. E por isso não vivem em Lisboa, vivem de Lisboa. Olhando em sua volta, ninguém parava quieto. Ou para apanhar o metro. Ou o táxi, Ou o autocarro. Era notório a falta de felicidade na cara daqueles transeuntes. Apenas viviam para trabalhar e dormir. Ninguém aproveitava o que de bom havia para oferecer. Todos os seus companheiros de esplanada eram turistas. Ouvia-se inglês. Francês. Espanhol. Italiano. E outras línguas ainda mais indecifráveis, talvez indiano ou outra.

E era destes turistas que outra classe social se alimentava. A cada cinco metros encontrava-se um pedinte. Ou um cantor. Um dançarino. Um vendedor de bugigangas, relógios ou óculos de sol. Em dias de chuva, a oportunidade dos chapéus. Estátuas vivas. Tudo girava à volta do dinheiro que lhes podiam oferecer, ou não. Alguns mais descarados, decidiam vender maconha. Com isto, Pedro associou as pombas. As pessoas pareciam reagir da mesma forma com ambos, ou alimentando-os ou ignorando-os. A música continuava a zumbir aos ouvidos de muitos. Até dos dele próprio, quando reparou que o seu intervalo estava a acabar.

- Olhe desculpe, pode-me fazer a conta?
- Dois euros.

- Em Lisboa pensam que toda a gente é turista - pensou Pedro.

Um rapaz do interior na capital

Nas voltas da vida, ele acabaria por embarcar com destino a Lisboa.

Com tamanhos sonhos, por tantas vezes de olhos abertos, ele acabaria onde menos esperaria. Que cidade é esta? O que tem isto a ver com a minha aldeia? Estas e outras, eram algumas das perguntas que se deparou quando chegou à estação dos autocarros e ouviu, "última paragem!".

Pedro. Era o nome do rapaz. Nascido e criado no interior a viver na capital. Um mundo diferente, completamente díspar de tudo aquilo que conheceu. Lisboa é terra de encantos. É propicio a tantas novidades. Maravilhas acontecem em cada canto, por vezes em mais que um canto ao mesmo tempo. Pedro nunca teria tempo para conhecer tudo. Nem metade. Talvez um décimo seria possível. Talvez...

Após uma névoa inicial, era necessário tomar as rédeas da vida. Já que aqui vou viver durante os próximos tempos, ao menos que viva como se deve viver, era o lema que Pedro pensava dia após dia quando acordava. A desilusão deu lugar a entusiasmo, a curiosidade. Aquela eternidade que os minutos no seu relógio cássio demoravam a passar, desapareceu. Pelo contrário, faltava-lhe tempo e, sobretudo, vivacidade para conseguir conhecer ainda mais.

Lisboa tinha tanto de bom. Existe um teatro em cada esquina. Cafés temáticos são aos pontapés. Música ao vivo em cada buraquinho. Restaurantes típicos de diferentes países até perder a conta. Meninas bonitas. Ai as meninas bonitas. Pedro nunca sabia para onde se virar na rua. Para onde quer que olhasse encontrava sempre uma menina bonita. Era a sua perdição. O local que escolheu para viver em tudo lhe fazia lembrar a sua casa. Era um bairro no meio da metrópole. A roupa estendida no parapeito da janela. As pessoas à conversa como os vizinhos costumam fazer. Gente acolhedora. Até a senhora da mercearia era prestável. Quando faltava o dinheiro na carteira, ela fazia fiado. A confiança, amabilidade e companheirismo reinavam naquele pequeno mundo.

Mas também tinha de mau. Lisboa era terra de desconhecidos. A maioria das pessoas com que Pedro se cruzava, encontravam-se na mesma situação que ele. Ninguém pertencia realmente ali. Vieram à procura das oportunidades, tal como ele. E por isso era tão complicado fazer amigos. Toda a gente já tinha os seus amigos (mesmo ele, apesar de com todo o trânsito e horários trocados nunca os conseguir ver). Toda a gente tinha a sua cidade natal. E com isto imperava a saudade de casa. Da família e dos amigos. Este sentimento era aquele com que Pedro mais lutava. A saudade de se reunir ao fim do dia com os amigos. Beber um copo. Jogar umas cartas. A diversão era sempre relativa quando o importante era a reunião. E a conversa. O aconchego da lareira. A doçura de nos sentarmos à mesa com o jantar feito, com aquele sabor especial. Fosse a mãe ou a avó, o comida tinha sempre outro gosto. Outro paladar. O abraço ao domingo era a imagem marcante num dos seus olhos, os sorrisos de sexta feira era o seu complemento.

Lisboa ainda é para ele, como a música dizia, menina e moça. Prestes a ser amada, como cidade mulher da sua vida.

Ela não olhou para ti.

"Ela não olhou para ti.
Sabes bem que não. Não interessa o quanto gostarias que tivesse olhado.
Ela sentiu-te, sim, disso não duvido. Mas olhou através de ti, não para ti. Conheceu-te, não te viu.
Chora, se quiseres. Não te deixasses levar. Não precisavas. Não és parvo, sabias onde tudo terminaria.
Mas soube-te bem. Melhor que a ela. Não a culpes por ter gostado, quando tu gostaste mais.
Não a critiques por não lhe doer, só porque te dói a ti.
Não a recrimines por estar preenchida, só porque te sentes vazio.
Faz o que tens a fazer. Segue. Não dependas de um olhar que não te pertence.
Tu não tiraste os olhos dela, mas ela não olhou para ti.
Não contes que venha a olhar."

Isto não é um Adeus, mas um Até Já!

Existe uma verdade universal que tomos temos que enfrentar, querendo ou não. Tudo acaba um dia e esse dia foi ontem.
Por mais que eu tenha esperado por este dia - e acreditem, esperei bastante -, nunca gostei de finais. Não gostei do último dia do verão, do último capítulo de um grande livro, o último episódio de uma excelente série, ou despedir-me de um amigo próximo, mas os finais são inevitáveis. Não são tristes, nem alegres. Enfadonhos ou sorridentes. São um virar de página. Um ponto final. As folhas caem, gritam que o outono chegou. O livro fecha-se. Arruma-se. Tu, eventualmente, dizes-me "adeus". Ontem foi um desses dias para mim. Demorou a chegar mas chegou com tudo o que tinha direito. A nostalgia foi-se apoderando de mim até não haver espaço para mais, as minhas entranhas já gritam saudade. Os meus olhos fazem força para não chorar. O meu pescoço desesperar por tanto "olhar para trás". Ontem disse adeus a tudo o que me era familiar. Tudo o que me era confortável. Aquele buraco no sofá que tão bem conhecia, aquele truque para ligar o forno, aquele café bem tirado.
Estou seguindo em frente. Mas só porque estou indo embora - e isso dói - há pessoas, que fazem tanta parte de mim, que estarão comigo, não importa o quê. Elas são o meu chão, a minha estrela polar e as vozes que estarão para sempre no meu coração, comigo. A todos um muito obrigado. Não gosto de ser cínico, por isso não o faço por obrigação ou sem sentimento. Bem pelo contrário. Sem vocês, que viveram, vivem e viverão comigo, seria impossível cumprir mais esta etapa. Guardo com carinho todas as histórias que partilhei com vocês. Guardo com ternura todos os momentos que me senti vossa família. Guardo com amor todas as palavras trocadas em momentos não tão felizes. Tornaram-me uma pessoa melhor. Como diriam os meus avôs, estou-me a tornar num homem graças ao meu passado. Estarei-vos eternamente grato, por isso:

- Isto não é um Adeus, mas um Até Já.

Retrospectivas

O que é o amor? É

tão diferente do que era antigamente. No tempo dos nossos avós vivia-se o amor de outra forma. Havia amor à primeira vista. Havia paixão e fogosidade na relação. Fugia-se de casa a meio da noite. Trepavam-se varandas. Enfrentava-se a futura sogra. Invadiam-se quintais para roubar meia dúzia de rosas. Tudo valia a pena para receber um simples

beijo. Movia-se o mundo por um pequeno gesto. Mas era apenas isso que valia a pena. Era levar o sabor dos lábios para casa. Era fechar os olhos e relembrar aquele momento. Era ter saudade de sentir aquele sabor a framboesa. Morder os lábios e reviver. Eles

viviam por isso. Havia paixão nos gestos, sentimento nas palavras e cavalheirismo nos actos. Ainda hoje, recordamos essas histórias com nostalgia. Quando se sentam à lareira e dizem com um brilho nos olhos o dia em que lhes abriram a porta do carro. Ou lhes puxaram a cadeira ao jantar. Ou lhes deram licença para passar em primeiro lugar. Ou as ajudaram a carregar algo mais pesado. Ou. Ou. Ou. Mas quando limpamos o pó do livro do amor e vamos ao capítulo dos dias de hoje, a história é bem diferente. Hoje

as pessoas apaixonam-se porque está na moda. Porque viram nos livros que é prático ter parceiro. Porque lhes dá jeito ter uma companhia no Inverno. Aquilo a que eles chamam de cobertor humano. Ou porque são colegas e estão ali ao lado. Pela boleia. Pela ajuda a trabalhar. Ou estudar. Porque se dão bem e não costumam discutir. Porque parece que faz sentido. Além de ficar mais barato. Só se faz uma máquina de lavar. Só se suja uma casa. Ainda conseguem dividir as contas. Porque precisam de um ombro e sabem que ali está sempre alguém. O que aconteceu foi que

o amor perdeu o seu verdadeiro sentido. Já não existe aquela chama. Já não se vivem os momentos como se fossem os últimos. O sexo é apenas mais um acto mecanizado. É chegar, despir, fazer, vestir e ir embora. Parece uma visita a um bordel mas sem o pagamento. Não existe o carinho nem a atenção. Não existe a cumplicidade nem o mimo. Parece que é uma imposição da sociedade sermos comprometidos. Mas

ainda vamos a tempo de mudar. Abre os olhos. Pensa. Imagina. Mas realiza. Em caso de dúvida, pergunta aqueles senhores que já têm toda uma vida nas costas. Eles te ensinaram que amor sem paixão é apenas um grande vazio mas

Amar com paixão é viver sem passado nem futuro. Apenas o presente importa.

(texto baseado em histórias reais)

A primeira vez, pela primeira vez.


"Continuava tesuda. É daquelas mulheres que não é linda de morrer nem tem um corpo escultural, mas o conjunto funciona bem. É alta, magra, cabelo escuro, peito não muito grande, mas com um rabo bem redondo. Ainda bem que sou um homem de rabos e não de mamas. Os anos tinham-lhe caído bem. O ar de pita com o pito aos saltos tinha desaparecido. Parecia uma mulher segura, confiante, mais do que estaria à espera. Semanas depois liguei-lhe. Não foi fácil marcar um café. Pelos vistos, a Cátia era muito ocupada. Dividia o tempo entre o escritório de advogados onde trabalhava e o voluntariado que lhe ocupava o restante tempo livre. Ficou para a sexta seguinte, sendo que sábado de manhã ela tinha que se levantar cedo porque ia passar o fim-de-semana fora.

Apareceu com umas calças justas que pareciam ter sido feitas à medida para o rabo dela. O top é preto, com umas cenas floreadas que não faziam lá falta nenhuma. Unhas cuidadas, maquilhagem suave, brincos compridos que ficavam bem com o corte cabelo. Quando nos cumprimentamos senti o aroma do perfume dela. Não percebi qual era, mas gostei. Demos aqueles beijos lentos na face, com os lábios, e não só cara com cara. Não sei porquê, mas senti-me a ficar ligeiramente excitado. Estava nervoso como se não tivesse passado por isto já tantas e tantas vezes. A conversa de circunstância durou o tempo suficiente. Falámos do trabalho, das relações falhadas do passado e de nós:

- Podíamos ter tentado, não achas, Francisco?

Apanhou-me desprevenido: - Como assim, Cátia?

- Quando entrámos na faculdade, mesmo com a distância, podíamos ter tentado fazer a relação resultar…

- Agora que falas nisso, podíamos sim, disse, sabendo no entanto que só lhe estava a dizer o que ela quer ouvir. Naquela altura, só queria ir livre e solto para a vida de universitário, sem namoradas herdadas do tempo de escola. Queria andar a foder quem me apetecesse, quando me apetecesse.

Vi que ela ficou feliz com a minha resposta. Cinco minutos depois disse que já era tarde e pediu-me para levá-la a casa. Tinha ido de táxi, porque atrasou-se e não conseguiu ir a casa buscar o carro. Não pensava em subir, mas ela convidou-me. Não pensava porque não me importava estar com ela outra vez, mas não se recusa um convite destes.

- Queres alguma coisa?

- Quero-te a ti, respondi.

Ela sorriu, aproximou-se lentamente e beijámo-nos. E beijámo-nos. Cada vez mais e cada vez mais intenso. Roupa aterrou no chão, no sofá, em cima da cómoda. Empurrou-me para cima de uma poltrona, pôs-se de joelhos. Os lábios fizeram maravilhas. Aguentei-me para não me vir logo ali. Comecei a fazer o que sempre fiz: pensar em basquete. Há quem pense em iraquianas, eu imagino homens de dois metros na luta dos ressaltos. Retribui o preliminar, fiquei ainda mais duro com os gemidos dela. Levei-a para o quarto e fodemos, fodemos durante o tempo que conseguimos aguentar. Não sei se ela se veio. Não percebi e não perguntei. E depois adormecemos. De manhã, ela acordou cedo, mas deixou-me lá ficar. Disse-me que havia croissants e cereais se quisesse comer alguma coisa. O Simão foi feito nessa noite."

História de amor

Quarto dela.

(...)

Ele: Amor, aqui está a tua prenda.

(Ela procura dentro dentro de uma caixa, que tem uma caixa mais pequena. E outra. E outra. Até que chega a uma caixa minúscula. É revestida de veludo azul e quando a abre os seus olhos brilham e soltam uma pequena lágrima. É um fio em prata onde se encontra um coração.)

Ele: É o meu. Agora é teu!

Ela: Que querido. Consegues sempre arranjar algo para me surpreender. A tua prenda está aqui no quarto. Está na cómoda, primeira gaveta.

Ele: Mas a gaveta está vazia.

Ela: A gaveta é a prenda. Agora tens um espaço para teres as tuas coisas. E deixou de ser o meu espaço, agora é meu e teu. É nosso!

(Ele sorriu e beijou-a.)

(...)

Trunfo: Todos temos um.

"Tenho piada. Muita. É um dom que me acompanha desde sempre. Não tenho aquela piada para fazer stand-up, mas sim uma natural, que é bastante útil nas conversas triviais que se tem no dia-a-dia. Não a uso só com o objectivo de ter sorte com as mulheres. Nada disso. Fazer uma piadola, seja com a senhora que está atrás do balcão nas Finanças, ou a cortar os frangos no Pingo Doce, fica sempre bem e corta a distância natural que existe nestas situações. E são sempre mais simpáticas. Ninguém fica a perder, portanto.
Mas sim, com as mulheres, o meu trunfo é ter piada. As mulheres gostam de um homem com sentido de humor. Não de palhaços de circo, mas de um homem que as faça rir. E muito. Não se pode é cair no exagero. Tem-se que dosear a piadola bem metida a meio de uma conversa, com um registo mais sóbrio, para não cansar a outra parte.
Tendo piada, nunca pensei muito no facto de ser giro ou feio. Ou seja, nunca foi esse o meu trunfo ao longo dos anos, por isso, acho que sempre me achei mais feio do que na realidade sou. E ser giro é apenas um bónus para mim, porque aposto tudo na capacidade de fazer rir uma mulher. E uma mulher que se ri com vontade, é uma mulher que me associa a momentos agradáveis, divertidos e bem passados.
Todos os homens têm que saber jogar com o que tem. Há aqueles que são giros e que nem precisam de falar para elas lhe acharem piada. Há outros que usam a inteligência e cultura geral para surpreender uma mulher, deixando-a cativada intelectualmente. Outros são como eu, piadolas. Há mulheres para todos os tipos de homens. Só temos é que encontrá-las. Parece mais difícil do que é."

(em 'O Homem Invisível')

Conversas ocasionais.

- Desculpa, não estás no meu coração!
- Como assim?
- (...)
- Então?
- O meu coração é teu.
- Raios, eu vou-te matar. Com essas palavras deixas-me K.O.

Como está visto, não são precisas muitas palavras para conquistar alguém. Apenas são precisas as certas.

Escrito por JD.

A carta anónima.


Existem sentimentos que por mais que o tempo passe por eles, já se tornaram intemporais. Isto acaba por definir a grandeza que criaram dentro nós. Não têm medo de nada. Nem da erosão do tempo, nem da força das palavras, nem da longevidade das saudades. Permanecem firmes ao longo da vida. E por isso tornam-se especiais. É a conjugação de factores que os torna únicos. É uma mistura de amizade com amor, de brincadeiras com seriedade, de abraços e beijos com turras e murras. Com tanta algazarra ficam sem definição. Perdi a noção de como lhe chamar, como me perdi no significado de mim. E de ti. Acho que além de perdido, foi algo erradicado dentro da minha memória a partir do momento que apareceu o ‘nós’.  ‘Nós’ somos tudo aquilo com que os comuns mortais sonham. Temos o que desejamos e é isso que o torna motivo de inveja. Porque não existe algo assim para além do nosso mundo. Um conto de fadas. Feito de príncipes e princesas, de sonhos. Um mundo só nosso onde ninguém ousará entrar. E de onde nós nunca queremos sair. Porque lá somos felizes na plenitude dos nossos seres. Sem medo e sem receios do mundo real. Nesse permanecem apenas os nossos corpos. As nossas almas há muito que se interligaram e viajam. Para aqui. Para ali. Para onde nos completamos. Onde a nossa cumplicidade é rainha e senhora de todos os nossos passos. E as nossas vivências serão as histórias que alguém irá contar aos seus filhos e netos para os adormecerem.  E com isto me despeço, com um obrigado amiga, obrigado amor, obrigado voz da consciência, obrigado ouvinte. Para sempre teu.

Sonhos quebrados

Era uma vez,

Um sonho. Sem que nada o fizesse prever, os meus olhos colaram nos teus. E os teus nos meus. O coração começou a palpitar. As mãos começaram a transpirar, aquele nervoso miudinho não me largava. As pernas fizeram o favor de ajudar e começaram a tremelicar. Ai eu não sou assim, só podes ser 'a Tal'. Mas

Mas com tanto, e com tão pouco fiquei mais tímido do que nunca. Tu desconfiaste. As minhas bochechas começaram a rosar, os olhos começaram a brilhar e eu não podia fazer mais nada do que desviar o olhar. Tu soubeste que era verdadeiro, o mais puro dos sentimentos. Gostei de ti assim que te vi.
O concerto continuava, as baladas seguiam-se umas após outras e nós não voltámos a cruzar olhares. Apenas diminuíamos o espaço que existia entre nós. Pé ante pé, sem que ninguém desse conta, íamos aproximando nossos corpos. Porque

Porque eles estavam a despejar paixão. Ninguém precisava de nos dizer, estava à vista de toda a gente. Eu queria-te tanto como tu me querias a mim. Mas tínhamos medo. De onde estávamos, de quem nos rodeava. Do mundo. Nada daquilo era para ser perdido, no fundo esse era o grande medo. Até

Até que se deu o click. Um cover de Bruno Mars, 'Just the way You are'. Era o que faltava para nos libertamos do medo. O meu dedo mindinho começou a enroscar-se no teu e dedo após dedo, as nossas mãos estavam entrelaçadas. Sabíamos que seria para sempre a nossa música, era algo que descrevia tudo aquilo que vi e o que sabia que iria ver em ti. Ouvimos toda a música em silêncio. O momento era bom demais, merecia ser apreciado. Os sonhos de cada um viajavam à velocidade da luz nos olhos do outro. O mundo tinha parado ali. E

E a incerteza deu lugar à vontade. Naquele último verso, aqueles segundos pareceram horas. Ainda hoje revejo tudo em 'slow motion' tal a lentidão como tudo aconteceu. As nossas cabeças começaram a rodar na direcção do outro e roubamos o último espaço que haviam entre nós. Os nossos lábios se encontraram. Tocaram-se. Sabiam que aquele era o primeiro de todos, o que mais merecia ser vivido. Saborearam tudo de uma maneira única. Sempre 'decorei' o sabor que ficou nos meus lábios depois. Era o sonho tornado realidade, assim pensava eu. Belisquei-me. E tudo não passava de eu a sonhar acordado.

Sonhos. Outros sonhos. Mais sonhos.

Perfume

" Não é uma viagem;
As viagens terminam, mas nós continuamos.
O mundo move-se e nós movemos com ele.
Planos perdem-se,
Sonhos instalam-se.
Mas onde quer que eu vá,
Aí estás tu!
Minha sorte,
Minha sina,
Meu destino...

Inevitável!"

Let the Show begin

Ainda não reparaste?

Só tu ainda não viste. Quando nasceste, já tinhas um propósito escrito no destino:

Não ser mais uma, mas alguém que sobressai no meio da multidão.

Uma cara arredondada. Mas nem isso é uma crítica. É, mais, um elogio que te faço. Algo que te assenta que nem uma luva. Ficas com um ar mais fofinho - se isto ainda fosse possível. É o cabelo que te cai pelos ombros. É a roupa que usas. É o teu ar 'looking for something' que capta a atenção de quem vê. Mesmo nos teus dias menos bons, pareces uma ilusão de óptica. Eu limpo as lentes e belisco-me ao mesmo tempo para ver se és mesmo real ou tudo não passa de um sonho.

E foi quando te 'conheci'.

Já tinhas a minha curiosidade, agora despertaste a minha atenção. Tu és uma modelo. Mas não uma qualquer. Existe algo dentro de ti. Não és oca como as outras. Tens paixão. Sentimentos. Inteligência. Espírito de criança. Quando nada fazia querer, tu és o pacote completo. Tens um exterior. E um interior. Que cativa. Que nos faz ansiar por conhecer mais. Pedir, com jeitinho, para levantares ainda mais o véu. Daquilo que és. Daquilo que queres ser. E é aqui que eu peço que me mates. Que me mates com amor. Que me arremates o coração. O elixir da vida está no prazer de receber um beijo teu. É isso que eu sonho. Será isso que me 'alimentará'. O prazer de saber que amanhã não será mais um dia, mas o dia. O dia em que 

Eu vou ter medo de que ouças o bater do meu coração!

Vai ser impossível não reparares.

Nascemos para sorrir


“Love is passion, obsession, someone you can’t live without. If you don’t start with that, what are you going to end up with? Fall dead over heels. I say: ‘find someone you can love like crazy and who’ll love you the same way back’.

And how do you find him? Forget your head and listen to your heart. I’m not hearing any heart. Run the risk, if you get hurt, you’ll come back. Because the truth is there is no sense in living your life without this.

To make the journey and not fall deeply in love – well, you haven’t lived a life at all. You have to try. Because if you haven’t tried, you haven’t lived.”






A imitação do amor

"Há pessoas que não conseguem ver para lá da espuma dos dias. São pessoas para quem o amor é imediato, impensado, imponderado e, por isso, não é bem amor.
Pode ser paixão, pode ter dedicação e empenho, pode até parecer consistente e sério, mas é apenas uma imitação do amor.

É muito fácil imitar o amor. Vivemos rodeados de imagens e sufocados por músicas que nos apelam constantemente para cenários idílicos, casais perfeitos, comédias românticas em que o amor vence sempre a vida ou por amores perdidos que nos roubaram o coração. O amor é um dos nossos motores de vida; quem vive sem ele seca como uma árvore sem água, mas quem vive sufocado nele pode afogar-se em mágoas.

O amor verdadeiro dá muito trabalho. É como um full time job sem folgas aos fins-de-semana e sem ordenado ao fim do mês. É estar lá para o outro, tanto nos dias em que o amamos, como nos dias em que estamos fartos dele. O amor não é feito de palavras nem de grandes gestos românticos, mas de provas, visíveis ou invisíveis, de amor. Não é abstracto nem transmissível: se amamos uma determinada pessoa não podemos passar esse amor para outra. Temos de deixar de amar a anterior, esquecer e recomeçar do zero, senão não é amor, é uma fuga para a frente, uma transferência afectiva, uma solução fácil e prática – tudo imitações do amor.

Talvez a lição mais difícil de aprender acerca do amor seja a de que o amor não se aprende. Treina-se com o tempo, apura-se com a maturidade, mas não se aprende, porque ou o temos dentro de nós ou não o temos. E quem o tem quase nunca o domina. Podemos saber o que seria certo fazer, mas nem sempre o fazemos. Podemos errar, mesmo quando não queremos. Podemos tratar mal os que amamos sem nos apercebermos. Mas quem ama perdoa ainda que não esqueça, quem ama segue em frente, quem ama não se agarra a desculpas, arregaça as mangas e não desiste, porque o verdadeiro amor é o avesso do medo e o melhor aliado da vontade.

Amar é proteger, é acreditar, é construir, é sonhar com os pés na terra. Amar é planear. E depois trabalhar em conjunto para que os planos e os sonhos se realizem. Nenhum amor sobrevive à espuma dos dias, recostado à sombra da bananeira, porque cada história de amor tem a sua própria vida, como uma terceira entidade. E como todos os outros seres vivos, se não cresce, morre.

Uma das maiores lições que o meu filho Lourenço me deu sobre o amor aconteceu quando ele tinha apenas três anos e fez um trabalho de colagens na escola. Na capa de cartolina a educadora escreveu a resposta, de cada criança, à pergunta: ‘O que é o amor?’. O Lourenço disse: ‘O amor é casar, e quando não resulta, é carregar os sacos de compras da mãe que é fraquinha’.

No dia em que encontrar o homem certo que me carregue os sacos, talvez me case outra vez. Mas até lá, há que levantar a cabeça e ver para lá da espuma." `


(Margarida Rebelo Pinto, in Sol)